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Imagine descobrir que parte do dinheiro da empresa está parada no estoque não porque a demanda aumentou, mas porque ninguém sabe ao certo quando a mercadoria vai chegar.
Para evitar a falta de produtos, muitas empresas mantêm estoques maiores e armazenam mercadorias por mais tempo. A decisão parece segura, mas tem um custo: dinheiro parado para compensar a falta de previsibilidade no transporte.
Em um cenário de custos logísticos altos, essa conta merece atenção. Entender quanto a empresa gasta para se proteger de atrasos, falta de veículos e imprevistos nas estradas pode ajudar a encontrar formas de reduzir despesas e tornar a operação mais competitiva.
O estoque de segurança também pesa no caixa
Os números do Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS) ajudam a mostrar o quanto a logística pesa na economia brasileira.
Em 2025, os custos logísticos do Brasil chegaram a R$ 1,96 trilhão, o equivalente a 15,5% do PIB nacional. Desse total, o custo para manter estoques representou 5,3% do PIB. Nos Estados Unidos, esse percentual foi de apenas 1,9%, segundo o ILOS.
Essa diferença chama a atenção. Manter produtos em estoque não significa apenas ocupar espaço no armazém. Também envolve vários outros gastos, como:
- Dinheiro parado em mercadorias que ainda não foram vendidas ou utilizadas;
- Despesas com armazenagem e movimentação dos produtos;
- Seguros e perdas durante a operação;
- Risco de os produtos vencerem ou ficarem ultrapassados;
- Custos financeiros relacionados ao estoque.
Quanto maior a quantidade de produtos armazenados para se proteger de imprevistos, maior pode ser o impacto no dinheiro disponível para investir, produzir e fazer a empresa crescer.
Mas existe uma pergunta importante: será que todo esse estoque é realmente necessário ou parte dele está sendo mantida porque o transporte não oferece previsibilidade suficiente?
Quando a incerteza no transporte aumenta a necessidade de estoque
O estoque de segurança tem uma função importante: ajudar a logística a lidar com mudanças na demanda, atrasos e imprevistos.
O problema começa quando esse estoque passa a ser usado para compensar falhas que poderiam ser resolvidas com um planejamento logístico mais eficiente.
Imagine uma empresa que precisa receber matéria-prima com frequência. Se os prazos de transporte variam muito, faltam veículos disponíveis e os atrasos são difíceis de prever, manter mais produtos armazenados pode parecer a única maneira de evitar uma parada na operação.
A lógica é simples: se não há certeza de que o próximo carregamento chegará no prazo, é melhor ter uma quantidade maior de produtos guardada. Essa decisão ajuda a evitar a falta de matéria-prima, mas também aumenta o dinheiro parado no estoque.
O próprio ILOS aponta que fatores como a infraestrutura de transporte e a necessidade de manter estoques influenciam os custos logísticos no Brasil. Isso ajuda a entender por que muitas empresas trabalham com estoques maiores para se proteger de imprevistos.
A falta de motoristas também dificulta o planejamento e a disponibilidade de transporte. Porém, isso não significa que toda empresa precise aumentar seu estoque de segurança. A decisão depende da realidade de cada operação.
Na prática, o mais importante é entender se o estoque está sendo definido com base na demanda e no nível de serviço desejado ou se está sendo usado para compensar problemas frequentes no transporte.
Mais estoque não protege a operação de todos os imprevistos
Manter mais produtos em estoque pode ajudar a lidar com alguns atrasos. Mas essa estratégia não elimina todos os riscos que podem afetar o abastecimento.
Uma enchente pode interditar uma rodovia. Um deslizamento pode bloquear uma rota. Uma condição climática extrema pode obrigar a empresa a mudar o planejamento das entregas.
Nessas situações, ter mais produtos armazenados pode dar à empresa um pouco mais de tempo para reagir. Mas isso não resolve, por si só, os problemas no transporte.
Os dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT) mostram como esses riscos são importantes para o setor. Segundo a Sondagem CNT de Resiliência Climática do Setor de Transporte, 70,6% das empresas entrevistadas relataram prejuízos financeiros causados por eventos climáticos extremos nos cinco anos anteriores ao levantamento. O estudo também identificou problemas como interrupções no transporte e necessidade de mudar rotas.
Esse cenário reforça um ponto importante: um plano para lidar com imprevistos não pode depender apenas da quantidade de produtos no estoque. É preciso combinar planejamento, acompanhamento das rotas, avaliação de riscos e capacidade de resposta para reduzir os impactos de situações inesperadas.
O estoque de segurança é importante. Mas depender somente dele para lidar com os problemas do transporte pode sair caro e não ser uma solução sustentável.
Visibilidade do transporte ajuda a tomar decisões melhores
Se parte do estoque existe para compensar atrasos e problemas no transporte, o primeiro passo para reduzir custos é entender melhor como a operação funciona.
Isso significa acompanhar o transporte de perto, avaliar o desempenho das transportadoras e identificar os riscos que podem afetar o abastecimento.
Alguns indicadores merecem atenção:
Percentual de entregas no prazo: Este é um indicador vital, pois o que o cliente mais precisa é que a mercadoria chegue no prazo. Com este indicador é possível estabelecer o prazo para cada região e cumprir o que foi prometido para o cliente.
Performance de entrega dos transportadores: Estabeleça o nível de serviço que vai exigir do seu transportador com base no seu produto/mercado/região, ou seja, é preciso estabelecer o percentual de entregas no prazo para cada transportador e principalmente controlar se este percentual está sendo cumprido.
Se o seu produto não estiver disponível para o consumidor no momento que ele precisa, com certeza ele vai comprar o produto do concorrente e a empresa perderá a venda.
Principais ocorrências de entrega: Com este indicador fica mais simples identificar se existem problemas com a transportadora, com a expedição, com a embalagem, com o recebimento de mercadorias, entre outros. Com a informação em mãos é possível identificar qual etapa do processo de entrega pode ser melhorado.
Ocorrências sem solução: Problemas com entregas sempre acontecem. Nem sempre a ocorrência é ocasionada pelo transportador, ela pode ser decorrente de problemas com embalagens, separação de produtos, infraestrutura de recebimento, entre outros motivos.
Por isso, é muito importante analisar os principais motivos e tomar ações preventivas. Às vezes uma pequena mudança no processo evita várias ocorrências.
Notas fiscais não entregues: O acompanhamento das notas não entregues faz com que você tome ações proativamente. Ou seja, quando se monitora as entregas é possível se antecipar e tomar decisões para evitar os problemas, gerando mais confiança no cliente e, consequentemente, fidelização.
Com essas informações, o gestor consegue identificar problemas que antes passavam despercebidos.
Imagine, por exemplo, uma empresa que mantém um estoque alto porque determinada rota apresenta atrasos frequentes. Ao analisar os dados do transporte, ela identifica os períodos mais críticos, entende as causas dos atrasos e busca alternativas para melhorar as entregas. Em vez de simplesmente aumentar o estoque, passa a trabalhar na origem do problema.
Essa análise pode ajudar a empresa a ajustar os níveis de estoque, melhorar o planejamento de abastecimento e usar o dinheiro disponível de forma mais eficiente.
É importante lembrar que reduzir o estoque não significa trabalhar sem uma margem de segurança. A decisão deve considerar a demanda, a variação dos prazos de entrega, o nível de serviço desejado e a capacidade de resposta da operação.
O objetivo é manter a quantidade de produtos necessária, sem transformar o estoque parado na resposta automática para todo problema de transporte.
Comece pela visibilidade do seu transporte
O que podemos concluir é que se você passa por esse cenário de atrasos nas entregas e problemas no transporte, o primeiro passo não é aumentar o estoque. É entender melhor o transporte que já está em operação. Assim, você consegue agir para resolver os problemas do transporte, em vez de simplesmente aumentar o estoque para se proteger deles.
Perguntas frequentes
O que é estoque de segurança?
É uma quantidade extra de produtos mantida pela empresa para se proteger de atrasos, mudanças na demanda e imprevistos no transporte.
Por que a falta de previsibilidade no transporte aumenta o estoque de segurança?
Quando os prazos de entrega variam muito e os atrasos são difíceis de prever, as empresas tendem a manter mais produtos armazenados para evitar a falta de mercadorias. Isso significa mais dinheiro parado no estoque.
Como reduzir o estoque de segurança sem aumentar o risco de desabastecimento?
Acompanhando o transporte de perto, avaliando os prazos, o desempenho das transportadoras e as causas dos atrasos. Assim, a empresa consegue agir sobre os problemas e não precisa depender apenas de mais estoque para se proteger.
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